24. Spiritism e spiritisme.

24. Spiritism e spiritisme.
Qualquer adepto medianamente informado sabe que Kardec não atribuía a doutrina espírita a si. Porém, uma coisa foi o que ele quis, outra, o rumo da história. Sem a codificação francesa, a palavra spiritism teria permanecido no inglês estadunidense,[i] anterior ao Livro dos Espíritos;[ii] não se teria, pois, afrancesado em spiritisme, que o pedagogo pestalozziano projetou, stricto sensu, como sinônimo de doctrine spirite. O vínculo semântico, todavia, com o lato alcance original permaneceu. Em 1868, Kardec usou, por exemplo, a expressão espiritismo “moderno”, ressaltando oposição entre os meios deste e os da magia ou feitiçaria. Em boa semiótica, isso referenda o quê? Um espiritismo “antigo”.[iii] E, de fato, o mestre disse que o espiritismo é tão antigo como a criação e nenhum homem, seu criador; que o espiritismo moderno é o despertar da antiguidade, mas agora liberta da superstição.[iv] Mesmo as expressões ciência espírita “moderna” e doutrina espírita “moderna” foram utilizadas pelo mestre em França, a ele dizendo os espíritos que tal doutrina é tão antiga como o mundo.[v] Nada sem motivo. Encontram-se os adjetivos ancient e present associados ao substantivo spiritism já em 1854, nos E.U.A., bem como por lá utilizadas as palavras spiritists e mediums.[vi] O frontispício da Revista Espírita de Kardec, aliás, não deixa dúvida: “A história do espiritismo na antiguidade”; ancianidade que ele sustentou como prova dos princípios doutrinários, jamais objeção. Não é surpreendente, portanto, que chamem magia ou feitiçaria de espiritismo, por serem, lato sensu, em retroativa semântica, práticas espíritas, isto é, que supõem a ação material dos espíritos; cultos afro-brasileiros, inclusive. O que há, pois, de novo? Respondeu o mestre: “O que é moderno é a explicação lógica dos fatos, o conhecimento mais completo da natureza dos espíritos, de seu papel e seu modo de ação, a revelação de nosso estado futuro, enfim, sua constituição em corpo de ciência e de doutrina e suas diversas aplicações. Os antigos conheciam o princípio, os modernos conhecem os detalhes”.[vii]
Ante a realidade filológica, deve-se impor o uso majoritário kardeciano, ou seja, a sinonímia entre espiritismo e doutrina espírita? Condenar o emprego do anterior sentido? E pior: por preconceito, às vezes? Ora; o alcance mais abrangente de spiritism permaneceu mesmo em Kardec. Continuará, pois, esse viés, em litígio. O princípio essencial do espiritismo sempre esteve nas relações dos espíritos com o mundo físico, havendo possibilidade de o integrante de qualquer outro segmento, católico, protestante, judeu ou muçulmano, ser espírita, ser adepto do espiritismo. Foi Kardec quem o disse.[viii] O mestre francês asseverou haver adotado — e não criado — os termos espírita, espiritismo, porque melhor exprimem o que é relativo aos espíritos; preferiu-os, sabiamente aliás, aos vocábulos espiritualista, espiritualismo, mesmo adjetivados da palavra novo. O uso de todos, porém, não cessou, sobretudo entre os adeptos da escola americana do espiritismo, com a qual, saliente-se, não havia, segundo Kardec, antagonismo radical de princípios, e sim divergências na forma, sem afetar o fundo.[ix] Sem efeito resta, desse modo, determinado texto atribuído ao mestre em Obras Póstumas: “Criamos a palavra espiritismo, para atender às necessidades da causa; temos pois o direito de lhe determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita”. Os organizadores do livro escreveram, antes disso, isto: “Ao que ele então dizia, acrescentou recentemente Allan Kardec”. Recentemente? Será? Estava morto havia 20 anos. Psicografia? Ele, porém, não criou a palavra. E que faz ali a referência: “(Revista Espírita, de abril de 1866, pág. 111)”? Trata-se de artigo do mestre contra as pretensões de um espiritismo livre de sua influência pessoal e mesmo da tutela dos espíritos. No ínterim, Kardec declara: “Inscrevendo no frontispício do espiritismo a suprema lei do Cristo, nós abrimos o caminho do espiritismo cristão; temos, pois, motivos para desenvolver os seus princípios, bem como os caracteres do verdadeiro espírita sob esse ponto de vista”.[x] O caso, portanto, não se refere à criação da palavra espiritismo por Kardec nem a um direito de, por esse suposto fato, ele fixar as qualidades e crenças do verdadeiro espírita, mas, isto sim, concerne ao rumo filosófico-religioso cristão que o mestre e seus guias conferiram ao spiritism, afrancesando-o em spiritisme, bem como se relaciona o artigo, aos efeitos dessa orientação no que tange ao desenvolvimento dos princípios e caracteres dos verdadeiros espíritas segundo esse ponto de vista, isto é, o de Kardec e seus guias; já manifesto, por sinal, desde a Revista Espírita de jul/1858, em que identificaram a prática da caridade cristã como objetivo de todos os que compreendem a essência do spiritisme.[xi] Na mesma esteira, dizeres do n. 222 de O Livro dos Espíritos; dos ns. 8 e 350 de O Livro dos Médiuns etc. etc.
De novo: deve-se impor a sinonímia majoritária kardeciana entre espiritismo e doutrina espírita frustrando os empregos de semântica retroativa do próprio mestre? A resposta está num vislumbre revelador e ora oportuno da Revista Espírita de out/1865. Em vida, um teólogo adversário da nossa causa, o sr. abade D..., referia-se ali, em comunicação mediúnica considerada instrutiva por Kardec, às divisões entre os espíritas, fossem os da escola americana, fossem os da francesa, sendo que, nesta última, seitas já despontavam em oposição ao núcleo principal. Este núcleo, segundo o espírito do abade sr. D..., era constituído — que interessante! — pelos “puristas ou kardecistas, que não admitem nenhuma verdade senão depois de exame atento e concordância com todos os dados.”[xii] Por mais que Kardec repelisse um kardecismo, tão confiante era na unidade futura dos espíritas mediante seu controle universal de ensino, a história seguiu outro curso. Esse controle desapareceu com o mestre e, já depois de seu decesso, como antes igualmente ocorria, não era unânime a restrição das palavras espiritismo, espírita, aos adeptos das obras doutrinárias do pedagogo pestalozziano. Ele mesmo se referiu, no último volume da Revista Espírita por si publicado, de abr/1869, ao espiritismo “americano”, bem como aos espíritas “americanos”, a quem, ali, tentou oferecer o corpo de doutrina que elaborou, visando, assim, uma unificação das duas escolas do spiritism. Sem sucesso, como era de se esperar. Eu apreciaria que espiritismo fosse tão só os princípios codificados por Kardec e, espíritas, apenas os adeptos desses apurados ensinos. Todavia, consideram-se e são aclamados pela sociedade contemporânea como espíritas, os integrantes de segmentos para além da esfera kardeciana, admitido aí, sempre, como vimos, o princípio essencial mesmo em Kardec presente: as relações dos espíritos com o mundo físico. Isso remete, por si só, à origem estadunidense da palavra: spiritism; ou seja, lato sensu, tudo aquilo relativo à ação material e aos dizeres dos espíritos, à revelia ou não da coordenação metódica kardeciana. Quem será hoje levado a sério na defesa de que Chico Xavier, p. ex., não era espírita nem suas obras são espiritismo? Além de uma hegemonia numérica evidente, existe uma razão filológico-etimológica apoiando o contrário. Pode-se dizer, pois, que tais livros e seus similares não são doctrine spirite, embora sejam, lato sensu, spiritism, no sentido original e difuso estadunidense. Esse é, ademais, o entendimento autorizado no derradeiro opúsculo de Kardec — Catálogo Racional de Obras que Podem Servir para Fundar uma Biblioteca Espírita, de mar/1869, que o mestre estruturou assim: 1 — obras fundamentais da doutrina espírita (as dele, todas); 2 — obras diversas sobre o espiritismo ou complementares da doutrina (as que, sendo complementares da doutrina umas, outras não sendo, sejam todas porém sobre o espiritismo), e 3 — obras feitas fora do espiritismo (as que, segundo Kardec, interessam ao espiritismo pela similitude dos princípios, pelos pensamentos espíritas que nelas se encontram, pelos documentos úteis que encerram, ou pelos fatos que aí se acham casualmente relatados.) Desse modo, podemos nos dizer kardecistas, ou mesmo espíritas kardecistas, em função das distinções necessárias no que concerne ao ensino codificado pelo mestre francês; kardecistas, sim, nós que, em espiritismo, não admitimos nenhuma verdade supostamente espiritual sem exame atento e aferida concordância com todos os dados. Já o digo sem achegas há tempos. Perguntam-me, respondo: — Sou kardecista. — Incultura! — clamarão. A maioria destes, no entanto, não saberá que espiritismo é palavra estadunidense anterior ao Livro dos Espíritos, nem que kardecista é termo integrante da Revista Espírita (out/1865), do clássico âmbito, pois, das obras fundamentais da doutrina. Usemo-la sem medo, em prol da clareza e da verdade histórica.



[i] Brownson: Boston, 1854; Goodrich: Burlington, 1854; Edmonds, Dexter, Warren: New York, 1855.
[ii] 1ª ed., Paris, 1857.
[iii] A Gênese, I: 19. (Paris, 1868.)
[iv] O Livro dos Espíritos. Conclusão: VI. Revista Espírita. Jan/1858: Introdução. Fev/1858: A floresta de Dodona. Abr/1858: O espiritismo entre os druidas.
[v] O Livro dos Espíritos, 221-a, 222. Conclusão: VI. Revista Espírita. Jan/1864: Santo Atanásio, espírita sem o saber.
[vi] GOODRICH, Chauncey. The Apocatastasis: Or Progress Backwards, VI, p. 64, Burlington.
[vii] O Espiritismo em Sua Mais Simples Expressão. Histórico do Espiritismo. (1862.)
[viii] O Espiritismo em Sua Mais Simples Expressão. Histórico do Espiritismo. (1862.)
[ix] O Livro dos Espíritos. Introdução: I. O Que É o Espiritismo? Cap. 1: Espiritismo e espiritualismo. Revista Espírita. Abr/1869: Profissão de fé espírita americana.
[x] Revista Espírita. Abr/1866: O espiritismo independente.
[xi] Revista Espírita. Abr/1866: Correspondência.
[xii] Revista Espírita. Abr/1866: Partida de um adversário do espiritismo para o mundo dos espíritos.