21. Essência benigna.

21. Essência benigna.

Assim diz a escritura: “Todos levam teu espírito incorruptível! Por isso, pouco a pouco corriges os que caem, e os admoestas, lembrando-lhes as faltas, para que se afastem do mal e creiam em ti, Senhor”.[i] 
Haveria fundamento para essa maneira de pensar entre kardecistas? Creio que sim. De idêntico modo podemos entender esta instrução do fundador da filosofia espírita: “A alma humana, emanação divina, leva nela o germe ou princípio do bem, que é seu objetivo final, e deve fazê-la triunfar das imperfeições inerentes ao seu estado de inferioridade na Terra”.[ii] O espírito Dufêtre, no mesmo sentido, ensina: “(...) se o coração humano é um abismo de corrupção, sempre existe em algumas de suas partes mais secretas o germe de bons sentimentos, centelha viva da essência espiritual”.[iii] O espírito Fénelon, consoante, sustenta: “O amor é de essência divina e, do primeiro ao último de vós, todos possuís, no fundo do coração, a centelha desse fogo sagrado. (...) por mais que procurem, não conseguem fazer desaparecer o germe vivaz que Deus colocou em seu coração, no momento em que os criou. Esse germe se desenvolve e cresce com a moralidade e a inteligência (...) Não acrediteis na dureza e na insensibilidade do coração humano, mesmo a contragosto ele cede ao verdadeiro amor; é um ímã ao qual ele não pode resistir, e o contato desse amor vivifica e fecunda os germes dessa virtude que está em vossos corações em estado latente”.[iv] Ainda no best-seller da codificação kardeciana, garante um espírito protetor: “Deus, em sua misericórdia infinita, colocou no fundo do vosso coração uma sentinela vigilante, que se chama consciência. Escutai-a, porque ela só vos dará bons conselhos. Às vezes podereis entorpecê-la, opondo-lhe o espírito do mal; então, ela se cala. Mas ficai seguros de que a pobre desprezada se fará ouvir no momento em a deixardes perceber a sombra do remorso. Escutai-a, interrogai-a, e, muitas vezes, sereis consolados pelos seus conselhos”.[v]
Tudo isso remete flagrantemente ao que a tradição cristã, em verdade, sempre chamou o Espírito Santo, ou o Santo Espírito, i. é, o nosso potencial divino, o germe do bem, a centelha viva da essência espiritual, donde, talvez, o quarto evangelho canônico estender a todos o que só aos juízes de Israel estava dito no Salmo 82, v. 6: “Vós sois Elohim (deuses). E todos vós sois filhos do Altíssimo”. Aos que digam que exorbito, recordarei o frontispício da Revista Espírita de Allan Kardec, no sentido de ser por demais extenso esse capítulo da história do espiritismo na antiguidade, integrando as infindas tentativas de explicar as lendas e as crenças populares, bem como a mitologia de todos os povos.



[i] Sabedoria, XII, 1-2. A Bíblia de Jerusalém.
[ii] Revista Espírita. Abr/1869. Profissão de Fé Espírita Americana, n. 18. Edicel.
[iii] O Evangelho segundo o Espiritismo, X: 18.
[iv] O Evangelho segundo o Espiritismo, XI, 9.
[v] O Evangelho segundo o Espiritismo, XIII, 10.