10. Ecumenismo.

10. Ecumenismo.

O mestre espírita postulava que “a unidade se fará em religião, como já tende a fazer-se socialmente, politicamente, comercialmente, pela queda das barreiras que separam os povos.”[i] Não deixou, pois, de expressar perspectiva ecumênica, universalista, ou como preferirem. Balizou-a ao dizer qual seria a melhor de todas as religiões e, depois, manteve-se nessa rota, detalhando-a: “(...) a melhor de todas as religiões é aquela (...) que procura melhor combater o egoísmo e lisonjear menos o orgulho e a vaidade dos homens; aquela (...) em nome da qual se comete menos mal, porque uma boa religião não pode servir de pretexto a nenhum mal; ela não lhe deve deixar porta alguma aberta, nem diretamente, nem por interpretação.”[ii] — “(...) a religião que terá de congregar um dia todos os homens sob o mesmo estandarte será a que (...) for a emancipadora da inteligência, com o não admitir senão a fé racional; aquela cujo código de moral seja o mais puro, o mais lógico, o mais de harmonia com as necessidades sociais, o mais apropriado, enfim, a fundar na Terra o reinado do bem, pela prática da caridade e da fraternidade universais”.[iii]
Percebe-se que as balizas dessa perspectiva ecumênica de Kardec não demarcam limites puramente morais; fincam-se em terreno filosófico e mesmo científico, distinguindo enfaticamente a importância da marcha progressiva da humanidade e das necessidades sociais para esse processo unificador. O mestre, não custa lembrá-lo, apresentara o espiritismo como “o mais potente auxiliar da religião”,[iv] na medida em que “a missão do espiritismo é combater a incredulidade pela evidência dos fatos, reconduzir a Deus os que o desconheciam, provar o futuro aos que criam no nada.”[v] O resultado, porém, foi que a Igreja lançou ferozes anátemas sobre aqueles a quem o espiritismo dava fé e, paradoxalmente, mais ainda do que quando muitos desses em nada criam. Segundo Kardec, ao repelir os que acreditavam em Deus e na alma pelo espiritismo, a Igreja os constrangia a buscarem refúgio fora de si mesma. Algo descontente com a situação, o mestre não hesitou em vaticinar com acerto: “Se algum dia [o espiritismo] tornar-se uma religião, é o clero que o terá provocado”.[vi]
Sempre montado numa razoabilidade granítica, Kardec estabeleceu mais tarde: “Uma religião que não estivesse, por nenhum ponto, em contradição com as leis da natureza, nada teria que temer do progresso e seria invulnerável”.[vii] Poderia ser o espiritismo? Kardec nunca o afirmou com todas as letras. Por outro lado, sua perspectiva francamente ecumênica funda-se em balizas fixadas justamente pelo espiritismo a princípio, e que, para o mestre, equivaleriam a um credo, mesmo a uma religião e, ainda assim, conciliável com qualquer culto, na medida em que garantiria: 1) a liberdade de os espíritas permanecerem em seus cultos, caso os tivessem; 2) a unidade entre esses espíritas a despeito de suas diferentes situações; 3) uma futura adesão do gênero humano a esse credo pela força mesma das coisas, culminando na sonhada fusão, num ecumenismo irrestrito alheio a qualquer tipo de ingerência, sendo a revelação espírita o ponto de ligação de todos os cultos.[viii] É o que se depreende de seu último discurso, no qual, após elencar aquelas balizas, concluiu: “(...) eis o Credo, a religião do espiritismo, religião que pode conciliar-se com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de adorar a Deus. É o laço que deve unir todos os espíritas numa santa comunhão de pensamentos, esperando que ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal”.[ix] Que credo seria esse com o poder de unir, num primeiro momento, os diferentes espíritas e, a posteriori, mesmo toda a humanidade? Quais as balizas dessa perspectiva ecumênica de Allan Kardec? Foram assim consolidadas poucos meses antes do seu decesso: “Crer num Deus Todo-Poderoso, soberanamente justo e bom; crer na alma e em sua imortalidade; na preexistência da alma como única justificação do presente; na pluralidade das existências como meio de expiação, de reparação e de adiantamento intelectual e moral; (...) esforçar-se cada dia para ser melhor que na véspera, extirpando toda imperfeição de sua alma; submeter todas as crenças ao controle do livre-exame e da razão, e nada aceitar pela fé cega; respeitar todas as crenças sinceras, por mais irracionais que nos pareçam, e não violentar a consciência de ninguém; ver, enfim, nas descobertas da ciência, a revelação das leis da natureza, que são as leis de Deus”.[x]
Utopia? Quem o saberá ao certo? Mas o fato é que muito diverge do que, mediante falas mansas e bem calculadas, vem sendo proposto por ávidos candidatos a condutores dessa fusão religiosa, os quais, na verdade, ambicionam que seus velhos dogmas permaneçam infensos a qualquer revisão e, a despeito desse engodo, ainda mereçam a adesão da maioria. Espíritas empolgados com o novo bispo de Roma deveriam atentar aos marcos da perspectiva ecumênica kardeciana antes de se renderem aos inegáveis encantos pessoais de Sua Santidade o Papa Francisco. Só haveria motivos de um tão grande entusiasmo se o sucessor de Pedro deixasse de apenas dizer aquilo que, no momento, não só é conveniente, mas vital à sua Igreja imersa no escândalo e, avançando, anunciasse profunda revisão dos dogmas ancestrais, hoje insustentáveis, aproximando-se, quem sabe, do credo por Kardec expresso. Afora isso, nada se afigura tão elogiável, porquanto falas mansas e mesmo atos de benevolência podem servir de disfarce a novíssimas contrarreformas, a invasivas catequeses que tenham neles o necessário passaporte, a inconfessa e sedutora senha para almejada conquista massiva de incautas adesões. Irmãos espíritas! Não nos esqueçamos de que Sua Santidade chefia os herdeiros imperiais de Constantino e do anátema de Niceia, grave distintivo da fé católica. E nós? Viemos sustentar francas heresias, as quais já foram cristianismos em passadas eras, e que Roma tentou apagar com todas as forças do seu fanatismo; ressurgiram, todavia, das cinzas da própria morte, pela reencarnação e pela comunicação mediúnica por vezes dos perseguidos e supliciados, a reivindicarem seu direito à verdadeira herança de Jesus Nazareno, a fim de que seja mais prontamente compartilhada com os que dela necessitam, agora sem os vícios peculiares àqueles antigos entraves corporativos. E eis aí a doutrina dos espíritos, a portentosa obra de Allan Kardec.
Todavia, há esperança para Roma. Tudo pode melhorar. Em face de certas correntes do pensamento teológico, mais plausíveis a seu ver e que pareciam tomar vulto em seu tempo, sobretudo contra a eternidade e a materialidade das penas após a morte, Kardec chegou a dizer que, sem o suspeitar, a Igreja marchava em direção ao espiritismo, sendo essa uma verdade a ser mais tarde constatada.[xi] Mesmo no seu herético estudo sobre a natureza do Cristo,[xii] onde nega, em nome das escrituras, que o Nazareno haja sido Deus, não deixa Kardec de observar que tais discussões, sempre estabelecidas de forma alheia aos fatos, só levaram ao cansaço e, pior, à incredulidade, afastando muita gente da “parte mais essencial do ensino do Cristo, a única que podia garantir a paz para a humanidade.” Ao final desse escrito, Kardec relaciona, perspicaz, uma tendência de retorno “às ideias fundamentais da Igreja primitiva e à parte moral dos ensinamentos do Cristo, por ser a única que pode tornar melhores os homens.” Para ele, se a Igreja tivesse seguido esse caminho, não estaria atingida pelo descrédito nem seccionada. A menção a esse direcionamento conta cerca de século e meio. Concretizou-se na teologia da libertação? Como quer que haja sido, desejamos o melhor à Igreja de Roma e ao seu Papa. Nossos corações estão abertos; mas, de forma nenhuma, fechados os nossos olhos.




[i] A Gênese, XVII: 32. Cf. O Céu e o Inferno. Primeira parte. Cap. I, n. 14.
[ii] O Que É o Espiritismo? Cap. I. Terceiro diálogo.
[iii] A Gênese, XVII: 32.
[iv] O Livro dos Espíritos, 148.
[v] Revista Espírita. Jul/1864: Reclamação do abade Barricand. F.E.B., p. 270.
[vi] Revista Espírita. Jul/1864: Reclamação do abade Barricand. F.E.B., p. 270.
[vii] A Gênese, IV: 10.
[viii] A Gênese, I: 45.
[ix] Revista Espírita. Dez/1868. Sessão anual comemorativa do Dia dos Mortos.
[x] Revista Espírita. Dez/1868. Sessão anual comemorativa do Dia dos Mortos.
[xi] Revista Espírita. Jul/1864. A religião e o progresso.
[xii] Obras Póstumas. Segunda parte.